O presidente da FCEI, Luca Maria Negro, fala sobre questões políticas italianas atuais

O presidente da FCEI, Luca Maria Negro, fala sobre questões políticas italianas atuais

Pastor Luca Maria Negro, presidente da Federação das Igrejas Evangélicas na Itália

Roma (NEV), 6 de junho de 2018 – Voltando da Assembleia da Conferência das Igrejas da Europa (KEK), que acaba de terminar em Novi Sad (Sérvia), o presidente da Federação das Igrejas Protestantes da Itália (FCEI), pároco Luca Maria Negrointervém sobre questões políticas italianas atuais.

A Assembleia da Conferência das Igrejas Europeias (KEK), organismo internacional que reúne cerca de 115 igrejas de tradição protestante, anglicana, catolicismo antigo e ortodoxo, concluiu-se ontem em Novi Sad. Você participou da Assembleia como palestrante, conduzindo um estudo bíblico sobre o tema da acolhida aos estrangeiros. Você tem a impressão de que a preocupação das igrejas evangélicas italianas com a situação dos migrantes é compartilhada pelas igrejas européias?

Certamente: entre os compromissos assumidos pela Assembleia no documento final sobre questões pĂşblicas está o de encorajar o desenvolvimento de rotas seguras e legais para os refugiados para a Europa, lembrando os governos de suas responsabilidades no resgate de migrantes Ă  deriva no mar e convidando a nĂŁo criminalizar atos de solidariedade para com os migrantes. No documento aprovado há uma referĂŞncia explĂ­cita ao projeto piloto dos corredores humanitários promovidos pela FCEI, a Tavola Valdese e a comunidade de Sant’Egidio.

Como avalia os primeiros passos do novo governo?

Não vou comentar algumas medidas económicas e de segurança social anunciadas porque teremos de perceber a sua coerência e sustentabilidade financeira. A esperança é que eles atendam a uma necessidade generalizada de segurança social e apoio à renda que se faz sentir há anos: especialmente entre os jovens e no Sul, para quem os efeitos da modesta recuperação que ainda existe ainda são incertos e pouco efetivos.

Pelo contrário, preocupa-me muito o capĂ­tulo da “imigração” que, a julgar pelas palavras e gestos dedicados ao tema, parece ser o centro da acção deste Governo que parece confiar ao Ministro do Interior um papel decisivo mesmo ao ditar a agenda internacional: a ideia improvisada de uma aliança com a Hungria, e nĂŁo com os paĂ­ses historicamente mais prĂłximos da Itália, desperta certa perplexidade. Embora concordando com a ideia de que os fluxos migratĂłrios devem ser gerenciados e os bolsões de irregularidade e ilegalidade devem ser combatidos, estamos preocupados com expressões como “acabou a carona”, referindo-se a pessoas que vivem em condições de sofrimento, marginalização e discriminação. Outro dia um imigrante foi morto perto de Rosarno e a notĂ­cia já sumiu das páginas dos jornais: esse Ă© o carona? Ou dos trabalhadores imigrantes que ganham 15 ou 20 euros por dia no interior do sul? Ou a dos 48 que morreram no Egeu enquanto fugiam da violĂŞncia e da tortura? Sim, estamos preocupados, mas tambĂ©m determinados a cumprir nosso dever de cristĂŁos.

E isso Ă©?

Deixe-me dizĂŞ-lo com uma palavra do Novo Testamento: filoxenìa, literalmente “amizade para o estrangeiro”, um termo geralmente traduzido como “hospitalidade” (Carta aos Hebreus 13:2). Somos pela fraternidade e amizade para com o estrangeiro, o imigrante, o asilado. E o somos por aquilo que lemos na BĂ­blia e que, como cristĂŁos, somos chamados a pĂ´r em prática com nossos gestos e ações. Apoiadores da filoxenia, sĂł podemos nos opor Ă  xenofobia.

Mais praticamente?

Grupo de sírios chegando do Líbano pelos corredores humanitários em Roma Fiumicino em 28 de abril de 2017

NĂłs saudamos. Damos as boas-vindas com os corredores humanitários que criamos junto com o Conselho Valdense e a comunidade de Sant’Egidio e graças aos quais mais de 1.200 refugiados em condições vulneráveis ​​chegaram Ă  Itália atĂ© hoje, legal e com segurança. Acolhemos em nossos centros e em nossos trabalhos diaconais, acolhemos colaborando com as ONGs que realizam buscas e salvamentos no Mediterrâneo. O cristĂŁo acolhe e nĂŁo pode fazer diferente.

Mas há limites e regras.

Claro, e por isso acreditamos que a solução para o drama da migração global não está apenas em nossos ombros, mas pertence à política nacional e europeia. Como evangélicos não acreditamos que devamos substituir os políticos que têm a tarefa de encontrar soluções sustentáveis ​​compartilhadas pela maioria. Mas também sabemos que a nossa vocação não é bajulá-los nem obter os seus aplausos: pelo contrário, somos chamados a interrogá-los, a pressioná-los, a contradizê-los quando promovem políticas inaceitáveis ​​para a nossa consciência.

Diálogo impossível, então, com este governo?

Longe disso. Este governo tem consenso e maioria e esperamos que faça o melhor e no interesse geral. E diante de questões e problemas críticos estamos prontos para fazer nossa parte como expressão da sociedade civil. A questão das migrações mediterrâneas não pode ser resolvida com fórmulas imaginativas ou invocando fechamentos insustentáveis: é o tema do nosso século, o maior desafio que enfrentamos e todos devem fazer a sua parte, na Itália, na Europa e também nos países de emigração. Também tínhamos escrito ao anterior Primeiro-Ministro para nos colocarmos à disposição para intervenções humanitárias “em sua casa”, desde que respeitassem as regras e os direitos humanos. E dizemos o mesmo ao governo chefiado por Giuseppe Conte.

Além da imigração, você tem outras questões que o preocupam?

Dois temas de liberdade: liberdade religiosa e direitos civis. Quanto ao primeiro, preocupa-nos a tendĂŞncia de reduzir o problema a uma questĂŁo de ordem pĂşblica, enquanto se trata de uma questĂŁo de civilização jurĂ­dica. Deste ponto de vista, a Itália registra altos e baixos: os altos e baixos da Constituição, dos Acordos já firmados com várias confissões religiosas; mas tambĂ©m os pontos baixos da permanĂŞncia da lei da era fascista sobre os “cultos permitidos” e dos acordos que foram congelados ou nunca colocados em prática, em primeiro lugar aquele com o IslĂŁ que hoje na Itália reĂşne quase dois milhões de pessoas.

A outra questĂŁo Ă© a dos direitos civis. Nos Ăşltimos dias ouvimos palavras sĂ©rias e inaceitáveis ​​de um ministro sobre famĂ­lias gays e uniões homossexuais. Estamos certos de que foi uma “voz do sen escapou” porque, perante tantos problemas urgentes em cima da mesa, seria verdadeiramente irresponsável reabrir uma questĂŁo que, apĂłs um longo debate, encontrou uma solução equilibrada no nosso opiniĂŁo.

Voltemos ao CEC. O que você acha da Itália de hoje nas redes ecumênicas europeias?

Há uma preocupação aí também. Mas também determinação. Um dos sinais mais bonitos destes anos é a harmonia com que as diferentes igrejas abordam questões como a imigração. E é também uma esperança para a Europa.

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